Um lamentável <br>«reencontro com a história»

Albano Nunes (Membro da Comissão Política do CC do PCP)

Foi graças à contra-re­vo­lução, de So­ares e Car­lucci, que Por­tugal chegou à si­tu­ação ac­tual

«A CIA, gi­gan­tesca e si­nistra or­ga­ni­zação de es­pi­o­nagem, cons­pi­ra­ções, golpes fas­cistas, ope­ra­ções de ter­ro­rismo de Es­tado, as­sas­si­natos de mi­li­tantes pro­gres­sistas, teve em Por­tugal, após o 25 de Abril, papel de re­levo no pro­cesso contra-re­vo­lu­ci­o­nário.»
(Álvaro Cu­nhal,
A ver­dade e a men­tira na Re­vo­lução de Abril
Não per­de­ríamos tempo com o re­cente en­contro de Mário So­ares com Car­lucci se ele ti­vesse sido «ín­timo» e dis­creto. Pro­va­vel­mente nem se­quer che­garia ao nosso co­nhe­ci­mento.

Mas tendo sido mediatizado e aproveitado para insistir em velhas e relhas versões anticomunistas do processo revolucionário português (Público de 23.09.06) não pode passar sem um claro registo crítico. E isto por algumas razões fundamentais.
Desde logo porque repõe e alimenta a tese provocatória de um PCP «golpista» quando conspiradores golpistas foram precisamente aqueles que acusam o PCP de o ter sido, como está hoje profusamente documentado, nomeadamente em A verdade e a mentira na revolução de Abril do camarada Álvaro Cunhal.
Depois porque o consulado de Carlucci como Embaixador dos EUA em Portugal entre 1975 e 1978 constitui um dos mais graves episódios da ingerência do imperialismo em Portugal contra a revolução portuguesa. É necessário nunca o esquecer na avaliação dos factores que levaram às divisões, confrontos, abdicações e traições no campo democrático que pavimentaram o caminho da contra-revolução. Há lições que mantém grande actualidade e que interessam seguramente todos os revolucionários e em particular aqueles que hoje se encontram empenhados em processos anti-imperialistas envolvendo profundas transformações progressistas, como na América Latina.
Ainda porque aquilo que foi uma expressão particularmente vergonhosa de alinhamento do PS com o imperialismo norte-americano e a social-democracia europeia contra a dinâmica profundamente popular e patriótica da revolução portuguesa, não pode passar, como tantos pretendem, por uma «corajosa» e «democrática» resistência a supostas tentativas dos comunistas para impor uma «ditadura totalitária».
Por fim porque foi graças à contra-revolução, para cujo triunfo Mario Soares e Carlucci deram destacada contribuição, que Portugal chegou ao ponto a que chegou em matéria de atraso económico, retrocesso social, degradação democrática, submissão nacional. Este é o resultado da reconstituição dos grandes grupos económicos e do regresso em força de um capitalismo profundamente parasitário e entreguista de que são expressão tanto a violenta ofensiva de direita do governo Sócrates (a que ainda há pouco Mário Soares deu expressamente o seu apoio) como os desvarios provocatórios do «conclave do Beato».

Re­en­con­tros e cons­pi­ra­ções

Seria despropositado pretender aqui ajuizar globalmente de percursos e evoluções pessoais. Ou negar que tenha havido alterações positivas de posicionamento em questões que, como os problemas da paz e da guerra, ganharam uma grande acuidade perante as ambições e a política de terrorismo de Estado conduzida pela administração norte-americana, como se viu há dias no intragável Prós e contras, em que foram actores Mário Soares e Pacheco Pereira. Mas é também por isso que não é possível deixar sem um sinal de indignação tão lamentável «reencontro com a história».
Porque aos fios da conspiração que Carlucci veio tecer em Portugal – na sequência da conspiração contra o Congo com o assassinato de Patrice Lumumba e do golpe militar contra o governo de João Goular que impôs ao povo brasileiro longos anos ditadura – corresponde hoje a brutal acção terrorista da administração Bush, tentando por toda a parte abater os regimes que se lhe oponham e criminalizar as forças e os povos que persistam na luta pela concretização do direito a escolher o seu próprio caminho de desenvolvimento. E hoje quando as operações «encobertas», ilegais e criminosas da CIA, instituição de que Carlucci foi expoente destacado, desempenham, talvez ainda mais que no passado um papel de primeiro plano, não pode passar em silêncio o real significado de um «reencontro» envolvendo aquele que para os portugueses é um símbolo de tão sinistra corporação. E tanto mais quando, a par da «legalização» pelo Congresso dos EUA de torturas como a da estátua e do sono, estão em curso no plano político e ideológico, tentativas particularmente sofisticadas e insidiosas para branquear e legitimar a existência e a acção tentacular da CIA.
Não é remexendo feridas que elas se curam e se avança na convergência de quanto possa convergir na luta contra a estratégia de agressão e guerra do imperialismo, mas quanto à verdade dos factos não pode haver quaisquer transigências. Para que não venham a repetir-se sob novas formas. E para que esteja claro que no campo democrático há fronteiras que nenhuma divergência política autoriza franquear e comportamentos cuja indecência nenhuma banalização pode iludir.


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